De frente comigo, perto do mar e longe do mau, Tom Jobim. Cheiro alcoólico, fumo e poesia acompanham a bruma densa que paira sobre a luz baixa do bar. A mesa? Perto do banheiro, preferência do mestre.

A princípio percebi que Tom estava melindrado com as coisas que vira em meus olhos.

Tossiu e em seguida botou o charuto no cinzeiro.

Chamou Alcides e, antes que este viesse até a mesa, sussurrou:

-Este é o único que me atende e me entende. Riu.

Chamou perto o Garçom querido e, com carinho, pediu-lhe ”aquela”.

Alcides fez que sim com a cabeça.

Veio então até a mesa, uma generosa garrafa de uísque. Tom rindo, perguntou:

-Posso jogar a tampa fora!?

Risos das duas partes.

Ele mesmo nos serviu com uma borbotoante dose do ”cachorro engarrafado”, como diria Vinicius de Moraes.

Resolvi quebrar o silêncio entre mim, Deus e o mestre.

-Medo da morte, Tom?

-Não. Saudades da vida. Essa é do Vinicius…

Sorrimos e quis saber:

-Saudades das boêmias ao lado do poetinha?

-Muitas. Costumávamos vir a este bar. Vinicius gostava do chope, do uísque, do gin, do vinho e do conhaque daqui. Gargalhou.

Repliquei me recuperando das risadas:

-Vininha tinha amor demais, né Tom? Afinal, como vai o amor?

Terminou uma longa puxada do charuto e exclamou:

-Se você sabe explicar o que sente, não ama.

Eu, surpreso e com forte anseio por mais vividas respostas do mestre, já ia indagá-lo novamente, quando ele então me surpreendeu:

-Vejo juventude em seus olhos, filho. Aproveita isso?

-Como posso e como me possua, mestre. Mas sinto falta de um pouco de realidade… Sabe? Mais amores, mais dores e mais saudades…

Bebi um gole confuso.

Tom compreendeu e mostrou isso balançando a cabeça. Então emendou:

-Se Joãozinho estivesse aqui, sairia sem dúvidas mais uma canção ”daquelas”…

Ele soltou um sorriso contemporâneo, tossiu e continuou:

-A realidade? As pessoas inventam tanta coisa que no fim você não tem tempo para ser todas elas…

Congelei. Tom, percebeu.

Arregaçou as mangas da camisa, olhou no relógio e finalizou:

-O médico, a uns tempos, me fez recomendação de dieta rigorosa. Cortei tudo. Em duas semanas perdi 14 dias. Vê se pode garoto…

Gargalhamos e pensei quieto, comigo. Era muito bom estar com alguém tão presente.

Arrematou o último gole do uísque, olhou no fundo dos mares dos meus olhos e disse:

-A vida tem sempre razão meu jovem. Pense nisto.

Levantou, arrumou a cadeira, fez sinal pro garçom e tudo certo. Veio então em minha direção.

Abraçou-me, desejou-me sorte e deixou comigo uma caneta, bonita. Em seguida, saudou retirando o chapéu as poucas almas que restavam no bar, o garçom e a mim.

É com fruto desta prosa, com palavras escritas por esta caneta e alma deixada pelo brasileiríssimo (até no nome) Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim que posso dizer e me orgulhar:

Conversei com Tom Jobim.

Renan.

Publicado por Boteco Saudade

Catalogando e colecionando incertezas.

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