As primeiras memórias futebolísticas da vida de um homem são turvas, porém, importantíssimas.
Por pensar nas minhas, creio que se resumem em idas ao Clube com meu pai, e, jogos de Domingo à tarde, assistidos na TV da sala de casa ou no sítio de meu avô.
Buscando então lembranças nos estilhaços da memória, recordei-me de um jogo inusitado num ano inusitado. Talvez seja este e, tudo o que envolveu, responsável pelo meu amor ao Palmeiras e ao futebol.
Se tratava de um embate entre Palmeiras e Flamengo, no Maracanã. Ao pesquisar a data para registrar aqui, deparei-me com 13/05/2007. Um dia antes de meu irmão Gabriel, completar um ano.
Mas, antes de falar propriamente da partida, devo discorrer algumas palavras sobre o ano de Dois Mil e Sete e toda sua importante relação futebolística em minha vida.
Lembro-me das partidas na quadra da escola; o São Paulo Futebol Clube dominando os gramados e a cabeça das crianças e, principalmente, da bola do Campeonato Brasileiro daquele ano.
Meu pai sempre me falava do Palmeiras (tentando logicamente, impingir em mim, o amor que seu pai e seu avô também um dia, passaram à ele). A questão era que, eu não tinha, com seis anos, paciência para assistir aos jogos.
Naquele Domingo, algo me levou até a sala de casa com meu pai. Era uma tarde de sol ~discreto~ no Rio de Janeiro. O ~Mário Filho~ estava pouco preenchido, o Palmeiras vestia aquele verde diferente e, o árbitro segurava uma bola ‘azul e branca’ que me chamou muito a atenção.
Lembro do primeiro gol, logo nos primeiros minutos. Edmundo cobrou uma falta esquisita e, meu pai, como um bom ~Palmeirense~, xingou antes que a bola terminasse seu trajeto. Gol. Golaço. O Palmeiras começava a partida vencendo e, eu, mesmo sem acompanhar o time, sabia que aquilo não era comum.
Talvez aí, neste gol, neste sentimento de desconfiança, nascia em mim o Palmeiras. Todo o pessimismo, o medo e a raiva já tomavam conta do meu ser ~Verde~ e pequenino.
Lembro-me da euforia em ver meu pai comemorando, gritando sem camisa. Juntei uma garrafa de Coca-Cola vazia nas mãos e comecei a batucar no chão da sala. Era tudo festa, tudo Palmeiras.
Edmundo pegou novamente a bola ‘azul e branca’. Desta vez, para bater escanteio. Cruzou na área e, em seguida, cabeçada de Osmar ~Cambalhota~ para o fundo das redes.
Eu não sabia muito bem o que era aquilo. Tanto que, daí em diante, me lembro de pouco. Talvez só a figura de meu pai todo feliz, cantarolando cantigas alviverdes e batendo palmas.
A bola ‘azul e branca’ era demais. Era a bola que faziam eu, meu pai e a terra inteira felizes. Era a bola que tornava o Palmeiras o melhor time do mundo.
O resultado daquela partida fora mais importante que 4 (quatro) a 2 (dois) para nós. Foi todo o meu descobrimento como Palmeirense e amor por aquele jogo que se jogava com aquela bola ‘azul e branca’. Bola essa que o Edmundo chutava e fazia o gol. Que o Edmundo cobrava um escanteio perfeito e saia gol.
O mundo era verde e bonito. O Palmeiras e o meu pai, os melhores do mundo. Os desejos? Eram alcançáveis.
Depois desse dia, estorvei papai com birra de criança, para que me desse de presente aquela bola. Me lembro que ele me disse para escrever uma cartinha ao ~Papai Noel~, e eu, como todo pirralho, escrevi e esqueci.
Certa tarde, depois da escola, meu pai me disse que tinha algo pra mim no porta-malas do carro. E tinha mesmo. A bola ‘azul e branca’ estava numa caixa de papelão com laço azul. O seu cheiro ~novinho~ está até hoje, presente em minhas narinas.
Foi uma total diversão com ela embaixo dos braços e no pé esquerdo. Chutei-a muito nas paredes de casa, no campinho do sítio e no Clube, quando ia com meu pai.
São coisas assim, como o futebol, o time do coração e a família da gente, que marcam as nossas vidas para todo o sempre.