Quero conhecer gente.

[…] E então exclamou: “Quero conhecer gente! Gente que sofra, que chore e que sinta saudades. Gente que morra de amor e disso não se esconda. Gente que não tema o ridículo a ponto de considerar tolice a própria candura. Gente que com cada gesto me faça lembrar o quanto sou imperfeito e tantas vezes reles.

Estou farto de semideuses! Afinal, onde é que há gente nisto tudo!?”. […]

.R.G.

Dois polos

Cada ser é, possivelmente, marcado por dois polos.

O primeiro polo implica seu espaço interno; e é, portanto, recheado de experiências, crenças, sentimentos, pecados e, quaisquer outras coisas das quais não se fala confortavelmente com alguém que não seja si mesmo.

O segundo é o polo externo, e assim sendo, é visível aos outros seres. Neste, a vida do ser é tangenciada com vidas de outros e, por conseguinte, emoções como a atração são geradas e eventualmente compartilhadas.

Quando um passo a mais, seja este uma palavra, um gole, um olhar, um toque, ou um beijo, une os dois polos, algo além de gemidos e gozos posteriores acontece; Amor.

Renan, 12 de Março de 2020.

Beber sozinho

Qualquer que seja o motivo, numa reunião entre pessoas, a bebida se faz preceito e indispensável. O ato de beber em coletivo, engloba os mais diferentes ambientes, como luxosas festas onde se veste terno, ou mesas de boteco onde se calça chinelo.

Nas relações afetivas a bebida também pode estar presente; um flerte, um brinde, um adultério são precedentes de beijos com sabor de álcool e amor com loucura.

Todos nós, no fundo, queremos alguém com quem se possa vivenciar porres homéricos, antecedidos por dividir uma pizza, goles de vinho barato, beijos e amor de cinema.

Mas nem tudo são rosas, aliás, poucas coisas são rosas além das próprias rosas. Então se faz difícil alguém assim, num estalar de dedos, materializados em nossa frente. É aí que se põe um som, se abaixa ou apaga as luzes e se bebe sozinho.

Há muita coisa por trás de beber sozinho…

Flerte

A arte do flerte desvenda mistérios humanos que nem mesmo, Da Vinci, puderá um dia sonhar em apurar.

O contato visual por mais de 4 (quatro), segundos é evidência desse fato. Quando estabelecido, pode-se facilmente visualizar a outra pessoa nua da cabeça aos pés. Tambem torna-se visível seu frio ou calor, seu tesão, seu medo e sua candura. Tudo isso compõe a eterna e incorruptível, volúpia humana.

Renan Gilioli

Paixão e Amor

Entre Paixão e Amor, existe apenas uma compatibilidade; São sentimentos que indiscutivelmente, fazem parte de qualquer coisa que se possa chamar de vida. De resto, o que se apresentam são inconformidades semelhantes.


Paixão é um norte que, quando dá suas caras, habitualmente faz por gerar uma espécie de euforia e certeza. É um sentimento esclarecedor no começo, prazeroso no meio e traiçoeiro no final. E é exatamente no fim, quando o ser se reconhece perdido num completo embaralho de sentimentos, que o equivoco acontece; A confusão o permite depositar toda sua frustração e raiva no Amor, que inerme, ainda nem fazia parte da história.

Por isso, a distinção entre estes dois sentimentos deve ser clara e obrigatória. O amor é um sentimento simples, você pode encontrá-lo e deixá-lo ir embora por não perceber sua simplicidade. Ele transmite paz, e não sentimentos fortes, que nos atormentam e provocam inquietude em nosso coração.

Renan Gilioli

Noite feliz

A alguns anos atrás, neste mesmíssimo dia, lembro-me de estar a observar o céu colorido em fogos de artifício. Era noite de natal.

Para uma criança, pode ser definido ”Natal”, qualquer coisa distinta do nascimento de Jesus Cristo. Em meu caso, comidinhas gostosas, presentes inesperados e a conversa fiada dos parentes simbolizavam o tal espírito mágico e natalino. O recheio desse enredo era composto por luzinhas, enfeites e cheiro de refrigerante. Eu, pequenino, não compreendia bem tudo aquilo, mas apreciava o brilho que ali existia.

Hoje, anos mais tarde, me pego a ver o céu sólido em uma bruma de começo de madrugada. Os barulhos são inexistentes, o que ao menos tem seu lado positivo, por assim não incomodar os cachorros. Consulto então o relógio no pulso e percebo ser Meia-noite, Natal, Jesus Cristo.

Os tempos em volta deste último dia Vinte e Cinco de Dezembro são sombrios e recheados de quaisquer coisa que se assemelhe com ódio. A barbárie permite soar grotesco uma felicitação de ‘’Feliz Natal’’.

Em tempos assim, o valor de; fazer um churrasco, beijar os parentes, ir à missa, benzer quebranto, lembrar-se  dos mortos, escutar samba, rodar a baiana e festejar o natal, simbolizam uma espécie de antídoto contra essa imensa onda de desumanização e caos que assola todos os mundos.

É importante valorizar os fins de ano e as festas, fugindo mesmo que brevemente, da rotina e dos cronômetros, das metas e dos escritórios. Compromissos de união como o Natal, são como fogos de artifício; acariciam o céu com suas danças e alegorias, espantam aos olhos daqueles que os veem e o sentem, o sentido de vazio.

Feliz Natal!

A bola que me fez gostar de ”bola”

As primeiras memórias futebolísticas da vida de um homem são turvas, porém, importantíssimas.

Por pensar nas minhas, creio que se resumem em idas ao Clube com meu pai, e, jogos de Domingo à tarde, assistidos na TV da sala de casa ou no sítio de meu avô.

Buscando então lembranças nos estilhaços da memória, recordei-me de um jogo inusitado num ano inusitado. Talvez seja este e, tudo o que envolveu, responsável pelo meu amor ao Palmeiras e ao futebol.

Se tratava de um embate entre Palmeiras e Flamengo, no Maracanã. Ao pesquisar a data para registrar aqui, deparei-me com 13/05/2007. Um dia antes de meu irmão Gabriel, completar um ano.

Mas, antes de falar propriamente da partida, devo discorrer algumas palavras sobre o ano de Dois Mil e Sete e toda sua importante relação futebolística em minha vida.

Lembro-me das partidas na quadra da escola; o São Paulo Futebol Clube dominando os gramados e a cabeça das crianças e, principalmente, da bola do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Meu pai sempre me falava do Palmeiras (tentando logicamente, impingir em mim, o amor que seu pai e seu avô também um dia, passaram à ele). A questão era que, eu não tinha, com seis anos, paciência para assistir aos jogos.

Naquele Domingo, algo me levou até a sala de casa com meu pai. Era uma tarde de sol ~discreto~ no Rio de Janeiro. O ~Mário Filho~ estava pouco preenchido, o Palmeiras vestia aquele verde diferente e, o árbitro segurava uma bola ‘azul e branca’ que me chamou muito a atenção.

Lembro do primeiro gol, logo nos primeiros minutos. Edmundo cobrou uma falta esquisita e, meu pai, como um bom ~Palmeirense~, xingou antes que a bola terminasse seu trajeto. Gol. Golaço. O Palmeiras começava a partida vencendo e, eu, mesmo sem acompanhar o time, sabia que aquilo não era comum.

Talvez aí, neste gol, neste sentimento de desconfiança, nascia em mim o Palmeiras. Todo o pessimismo, o medo e a raiva já tomavam conta do meu ser ~Verde~ e pequenino.

Lembro-me da euforia em ver meu pai comemorando, gritando sem camisa. Juntei uma garrafa de Coca-Cola vazia nas mãos e comecei a batucar no chão da sala. Era tudo festa, tudo Palmeiras.

Edmundo pegou novamente a bola ‘azul e branca’. Desta vez, para bater escanteio. Cruzou na área e, em seguida, cabeçada de Osmar ~Cambalhota~ para o fundo das redes.

Eu não sabia muito bem o que era aquilo. Tanto que, daí em diante, me lembro de pouco. Talvez só a figura de meu pai todo feliz, cantarolando cantigas alviverdes e batendo palmas.

A bola ‘azul e branca’ era demais. Era a bola que faziam eu, meu pai e a terra inteira felizes. Era a bola que tornava o Palmeiras o melhor time do mundo.

O resultado daquela partida fora mais importante que 4 (quatro) a 2 (dois) para nós. Foi todo o meu descobrimento como Palmeirense e amor por aquele jogo que se jogava com aquela bola ‘azul e branca’. Bola essa que o Edmundo chutava e fazia o gol. Que o Edmundo cobrava um escanteio perfeito e saia gol.

O mundo era verde e bonito. O Palmeiras e o meu pai, os melhores do mundo. Os desejos? Eram alcançáveis.

Depois desse dia, estorvei papai com birra de criança, para que me desse de presente aquela bola. Me lembro que ele me disse para escrever uma cartinha ao ~Papai Noel~, e eu, como todo pirralho, escrevi e esqueci.

Certa tarde, depois da escola, meu pai me disse que tinha algo pra mim no porta-malas do carro. E tinha mesmo. A bola ‘azul e branca’ estava numa caixa de papelão com laço azul. O seu cheiro ~novinho~ está até hoje, presente em minhas narinas.

Foi uma total diversão com ela embaixo dos braços e no pé esquerdo. Chutei-a muito nas paredes de casa, no campinho do sítio e no Clube, quando ia com meu pai.

São coisas assim, como o futebol, o time do coração e a família da gente, que marcam as nossas vidas para todo o sempre.

Os meus

Eu escolho os meus pelo olhar, apenas pelo olhar. Recuso quaisquer outros frios e rasos atributos. Não me interessam cores, dinheiros, jeitos ou trejeitos, não!

O olhar daqueles que me façam sentir como um louco, um louco santo. Não quero que à mim fantasiem falsas vitórias e muito menos forçados elogios. Longe de mim, por favor! Dispenso também risos previsíveis, alegrias catalogadas e choros piedosos… Cruzes!

Quero que me apontem o dedo, mas com jeito e galhardia. Não quero respostas, mas sim perguntas. Quero nestes meu avesso. Nada de seriedade demais, quero equilíbrio: Metade infância, metade velhice.

Que sejam calculistas e, com suas cabeças pensantes façam da realidade seu aprendizado. E por fim, que lutem. Lutem comigo para que da vida não se perca a fantasia e o colorido.

Quem não ri junto não está junto. Quem não está junto não ama. Quem não ama não vive.

Renan

Conversei com Tom Jobim

De frente comigo, perto do mar e longe do mau, Tom Jobim. Cheiro alcoólico, fumo e poesia acompanham a bruma densa que paira sobre a luz baixa do bar. A mesa? Perto do banheiro, preferência do mestre.

A princípio percebi que Tom estava melindrado com as coisas que vira em meus olhos.

Tossiu e em seguida botou o charuto no cinzeiro.

Chamou Alcides e, antes que este viesse até a mesa, sussurrou:

-Este é o único que me atende e me entende. Riu.

Chamou perto o Garçom querido e, com carinho, pediu-lhe ”aquela”.

Alcides fez que sim com a cabeça.

Veio então até a mesa, uma generosa garrafa de uísque. Tom rindo, perguntou:

-Posso jogar a tampa fora!?

Risos das duas partes.

Ele mesmo nos serviu com uma borbotoante dose do ”cachorro engarrafado”, como diria Vinicius de Moraes.

Resolvi quebrar o silêncio entre mim, Deus e o mestre.

-Medo da morte, Tom?

-Não. Saudades da vida. Essa é do Vinicius…

Sorrimos e quis saber:

-Saudades das boêmias ao lado do poetinha?

-Muitas. Costumávamos vir a este bar. Vinicius gostava do chope, do uísque, do gin, do vinho e do conhaque daqui. Gargalhou.

Repliquei me recuperando das risadas:

-Vininha tinha amor demais, né Tom? Afinal, como vai o amor?

Terminou uma longa puxada do charuto e exclamou:

-Se você sabe explicar o que sente, não ama.

Eu, surpreso e com forte anseio por mais vividas respostas do mestre, já ia indagá-lo novamente, quando ele então me surpreendeu:

-Vejo juventude em seus olhos, filho. Aproveita isso?

-Como posso e como me possua, mestre. Mas sinto falta de um pouco de realidade… Sabe? Mais amores, mais dores e mais saudades…

Bebi um gole confuso.

Tom compreendeu e mostrou isso balançando a cabeça. Então emendou:

-Se Joãozinho estivesse aqui, sairia sem dúvidas mais uma canção ”daquelas”…

Ele soltou um sorriso contemporâneo, tossiu e continuou:

-A realidade? As pessoas inventam tanta coisa que no fim você não tem tempo para ser todas elas…

Congelei. Tom, percebeu.

Arregaçou as mangas da camisa, olhou no relógio e finalizou:

-O médico, a uns tempos, me fez recomendação de dieta rigorosa. Cortei tudo. Em duas semanas perdi 14 dias. Vê se pode garoto…

Gargalhamos e pensei quieto, comigo. Era muito bom estar com alguém tão presente.

Arrematou o último gole do uísque, olhou no fundo dos mares dos meus olhos e disse:

-A vida tem sempre razão meu jovem. Pense nisto.

Levantou, arrumou a cadeira, fez sinal pro garçom e tudo certo. Veio então em minha direção.

Abraçou-me, desejou-me sorte e deixou comigo uma caneta, bonita. Em seguida, saudou retirando o chapéu as poucas almas que restavam no bar, o garçom e a mim.

É com fruto desta prosa, com palavras escritas por esta caneta e alma deixada pelo brasileiríssimo (até no nome) Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim que posso dizer e me orgulhar:

Conversei com Tom Jobim.

Renan.

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